domingo, 24 de abril de 2016

Vale a pena suplementar iodo para tireoide?

Alguns modismos são potencialmente perigosos. A suplementação de iodo com a intenção de prevenir doenças tireoidianas, na grande maioria das vezes, causa mais prejuízos do que benefícios a saúde. Pessoas com disfunções leves ou nódulos, principalmente se não diagnosticados, correm risco ainda maior de enfrentar problemas causados pelo uso indevido de iodo. Vamos entender por quê...



O iodo é considerado um micronutriente com distribuição variável na crosta terrestre. Isto quer dizer que em algumas regiões geográficas, especialmente áreas montanhosas e regiões afastadas do litoral, podem ser carentes de iodo. Nossa tireoide usa cerca de 52 mcg (1000 mcg equivalem a 1 mg) de iodo todos os dias para fabricar o T4 (65% do peso em iodo) e o T3 (59% do peso em iodo). Para garantir o aporte correto deste nutriente, é recomendada uma ingestão diária de iodo de 150 mcg para adultos, 220 mcg para gestantes, 290 mcg para mulheres amamentando e 90-120 mcg para crianças de 1 a 13 anos de idade. Em nosso meio, a principal fonte de iodo é o sal de cozinha. No Brasil, por lei, cada quilo de sal possui de 15 a 45 mg de iodo. Esse valor foi ajustado no ano de 2013 (antes, cada quilo de sal tinha de 20 a 60 mg de iodo), após estudos em que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) detectou ingestão excessiva deste micronutriente no nosso país. Além do sal de cozinha, o iodo também pode ser encontrado em frutos do mar, em algas e em alguns medicamentos como a amiodarona, por exemplo. Suplementos a base de iodo como a solução de Lugol e a SSKI possuem quantidades astronômicas de iodo! Enquanto uma gota de Lugol tem 6,35 mg, uma gota de SSKI tem 38,5 mg de iodo. Ou seja, uma gota de Lugol possui 42 vezes mais iodo do que o recomendado (!) e uma gota de SSKI, 256 vezes (!!!). Definitivamente, nossa tireoide não precisa de tanto iodo! E o pior, pode ficar doente com esse excesso.
Um dos motivos de não necessitarmos de tanto iodo é a autorregulação tireoidiana. Graças a este mecanismo, a tireoide consegue manter a produção de hormônio na medida certa se não houver carência grave de iodo ou doença na glândula. As células da tireoide quando expostas a grande quantidade de iodo param de captá-lo e diminuem a produção de hormônio. É o efeito Wolff-Chaikoff. Dentro de algumas semanas, em pessoas saudáveis, há um escape e a tireoide retorna a captação do iodo para manter a produção de hormônio constante. Em outras palavras, não adianta fornecer iodo demais. A tireoide usa até um limite e o excesso é ignorado, a menos que haja problemas com ela...
Em pessoas com doença na tireoide, mesmo que não diagnosticada, o excesso de iodo é capaz de causar problemas. Quando há bócio endêmico ou nódulos autônomos, o excesso de iodo ofertado é captado e transformado em mais hormônio. Nesses casos, a pessoa que ingeriu iodo excesso desenvolve HIPERtireoidismo. Além disso, em alguns casos, dependendo da quantidade de iodo a que a tireoide foi exposta, pode haver dificuldades no diagnóstico preciso, já que o excesso de iodo pode interferir na correta interpretação de exames como a cintilografia, por exemplo. O quadro de hipertireoidismo induzido por iodo costuma durar de 1 até 18 meses e o tratamento consiste em evitar a ingestão de mais iodo, tratar os sintomas e a doença tireoidiana de base. Por fim, idosos apresentam risco maior de HIPERtireoidismo induzido pelo iodo pois frequentemente possuem nódulos ou disfunções tireoidianas assintomáticas.
Pessoas com tireoidite crônica ou de Hashimoto, especialmente se não tiverem diagnóstico, com história de tratamento com iodo radioativo no passado ou de cirurgia na tireoide, além dos pacientes com tireoidites silenciosa, subaguda ou pós-parto, podem desenvolver HIPOtireoidismo quando expostos a excesso de iodo. Estes pacientes, diferentemente das pessoas saudáveis, não conseguem escapar do efeito Wolff-Chaikoff. Isto é, o excesso de iodo acaba por inibir a produção de hormônio por parte da tireoide. Mulheres grávidas devem ter cuidado redobrado, já que o iodo atravessa a placenta com facilidade, e o excesso pode inibir a tireoide do bebê. Felizmente, o HIPOtireoidismo nestes casos costuma ter resolução rápida após suspensão da exposição ao iodo, a não ser que já houvesse doença tireoidiana não diagnosticada antes do início da suplementação.
Diversos estudos populacionais mostram que o consumo excessivo de iodo pode causar problemas à saúde, especialmente hipotireoidismo e tireoidite de Hashimoto. Na contramão da evidência científica exitem diversos defensores da suplementação de iodo para prevenção ou tratamento de doenças tireoidianas. Isto é um equívoco grave e um problema de saúde pública. Ora, se também há estudos mostrando que consumir açúcar em excesso causa obesidade e diabetes, por que estimular pessoas a fazer uso de um tratamento potencialmente deletério como a suplementação de iodo? É algo que nem a ciência consegue explicar...

Fonte: Iodine-induced thyroid dysfunction - UpToDate OnLine

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 17 de abril de 2016

Monitorização da glicemia capilar no paciente com diabetes mellitus

A monitorização da glicemia capilar, ou teste de ponta de dedo, é essencial no seguimento de todo paciente diabético em uso de insulina ou de outros medicamentos que possam causar hipoglicemia como sulfonilureias. Em pacientes com diabetes mellitus tipo 2 que fazem tratamento com medicamentos que não causam hipoglicemia, o uso da monitorização da glicemia capilar é controverso.

Medição da glicemia com o aparelho FreeStyle Libre

Antes de começar a monitorização, é importante ler o manual do glicosímetro (aparelho de medicação) com atenção e tirar todas as dúvidas com o médico ou com o fabricante. Alguns aparelhos possuem chips de calibração para cada novo conjunto de fitas. É importante que este chip seja trocado antes dos testes começarem a ser feitos. Além disso, as fitas possuem um estojo próprio que as protegem de umidade e oxidação. Devem ser mantidas SEMPRE dentro deste recipiente e só retiradas para os testes.
Via de regra, os testes devem ser realizados principalmente antes das refeições e lanches. Ocasionalmente são realizados testes após as refeições, antes de dormir ou de madrugada. Outras situações em que se recomenda realizar testes são antes de atividades físicas ou antes de tarefas com risco de acidentes, como dirigir, por exemplo. Sempre que houver ajuste na medicação ou mudança nos padrões alimentares e de exercício, pode ser necessária monitorização mais frequente. No caso de febre ou doença aguda, assim como durante a gravidez, o paciente diabético deve monitorar com maior frequência e manter contato com seu médico endocrinologista.
Também é importante que o paciente mantenha um registro diário dos testes de glicemia capilar. O registro pode ser feito em agenda, planilha no computador, ou mesmo em aplicativo indicado pelo seu médico (GlicOnline ou My Sugr, por exemplo). Neste diário, além do valor da glicemia capilar, também é importante que se registre dia, hora, dose de insulina, alimentação e atividades físicas. Diversos modelos de glicosímetros guardam na memória um número variável de testes. Contudo, ainda assim, é aconselhável de o paciente tenha seus próprios registros.
Em breve, teremos disponível um dispositivo capaz de medir a glicemia em tempo real. O aparelho FreeStyle Libre da Abbott funciona através de um sensor introduzido no braço que deve ser trocado a cada 14 dias. A leitura da glicemia é feita através de um sistema wireless e o sistema conta com software que analisa e fornece gráficos muito precisos da flutuação da glicemia do paciente. Promessa de maior conforto e comodidade...
Por fim, é importante higienizar as mãos com água e sabão antes de realizar cada medição. Além disso, manter o aparelho e as fitas em estojo próprio e sempre limpos são obrigações do paciente diabético.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576


domingo, 10 de abril de 2016

Atividade física: entenda a importância

Quais são os benefícios dos exercícios físicos?
Entre os benefícios dos exercícios físicos estão:
– queima de calorias, o que acaba por ajudar no emagrecimento;
– melhor controle dos níveis de glicose (açúcar no sangue) nos indivíduos com diabetes mellitus tipo 2;
– redução da pressão arterial, especialmente em pessoas hipertensas;
– diminuição do estresse e ajuda no tratamento da depressão;
– fortalecimento dos ossos, diminuindo o risco de osteoporose e de fraturas;
– diminuição no risco de morte por doenças cardíacas e vasculares.



Quais os principais tipos de exercícios físicos?
São 3 os principais tipos de exercícios:
– Aeróbicos: são exercícios que aumentam a frequência cardíaca. Exemplo: caminhada, natação, andar de bicicleta.
– Treino de força: ajuda os músculos a ficarem mais fortes. Exemplo: musculação com levantamento de pesos.
– Alongamento: ajuda as articulações e músculos a se moverem mais facilmente.
É importante ter os 3 tipos de exercício dentro do seu programa.

Qual o tempo e a frequência ideal para os exercícios físicos?
Idealmente deve-se fazer no mínimo 30 minutos 5 vezes por semana de atividades físicas. Quando não se está habituado, inicia-se com tempo e frequência menores, que são aumentados progressivamente.

O que fazer quando não existe tempo suficiente para fazer exercícios físicos?
Algumas pessoas têm vidas muito agitadas e muitas vezes torna-se difícil encontrar tempo para fazer atividades físicas diariamente. Mesmo assim, o exercício físico é importante, deve ser feito e acaba por aumentar a disposição nas tarefas do dia a dia.
Nos dias em que realmente não há possibilidade de se fazer exercícios físicos, algumas dicas para manter o corpo ativo são:
– preferir escadas ao invés do elevador;
– estacionar o carro ou descer do ônibus um pouco mais longe do local de destino;
– escolher o caminho com maior distância para caminhar de um lugar até o outro.

O que mais se deve fazer durante o exercício físico?
Para se exercitar com segurança e evitar problemas, certifique-se de:
– beber líquido antes, durante e depois da atividade. Evite bebidas cafeinadas;
– evitar exercícios ao ar livre se o clima estiver muito quente ou muito frio;
– vestir roupas leves e calçados apropriados.

Se você pretende iniciar um programa de exercícios físicos, principalmente se estiver sedentário por um tempo prolongado ou tiver problemas de saúde, converse com seu médico antes. Alguns exames podem ser necessários para que você possa iniciar seu programa de atividades com segurança. E o mais importante: procure um profissional de educação física qualificado.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 3 de abril de 2016

Tratamento medicamentoso do diabetes mellitus tipo 2: metformina, o bom e barato

O tratamento de doenças através de chás e plantas não deve ser encorajado. Apesar de muitas plantas realmente terem um princípio ativo, é difícil, para não dizer impossível, saber o quanto e o quê se está realmente consumindo. Isso, contudo, não diminui a importância da sabedoria popular. Vários medicamentos foram desenvolvidos através de plantas, entre eles a metformina, que até hoje é o melhor e mais barato medicamento para o tratamento do diabetes mellitus tipo 2.
A metformina deriva de uma classe de substâncias chamadas biguanidas. O efeito das biguanidas no tratamento do diabetes é conhecido desde a Idade Média, quando os aldeões diabéticos tomavam chá da planta Galega officinalis para se tratar.



A metformina é um remédio bastante antigo também. Está no mercado desde 1950. E estes mais de 60 anos de uso permitiram que ela fosse muito estudada, mostrando com clareza todos seus benefícios e possíveis riscos.
No diabetes tipo 2, a insulina produzida pelo pâncreas não funciona direito, ou seja, existe uma resistência a sua ação. A insulina é a responsável por fazer com que a glicose (açúcar do sangue) seja devidamente utilizada pelas células. Logo, com as células resistentes a ação da insulina, a glicose começa a subir no sangue e o diabetes acaba por aparecer. A metformina age exatamente neste ponto. Ela diminui a resistência a insulina, facilitando a captação de glicose pelas células.
Além dos efeitos benéficos sobre a glicose, a metformina diminui o ganho de peso, melhora os níveis de colesterol e reduz a deposição de gordura visceral (a gordura depositada na barriga que se associa a doenças cardíacas e vasculares). Talvez seja por isso que a metformina seja um dos poucos medicamento para o tratamento do diabetes que reduz mortalidade por causas cardíacas e vasculares. Além disso, os pacientes diabéticos que fazem uso de metformina tem um risco menor de mortalidade por qualquer causa e de desenvolver câncer no trato gastrointestinal. Outras vantagens da metformina são não causar hipoglicemia (diminuição da glicose do sangue que causa sintomas como tremor, tonturas e suor frio) e ser muito barata. Atualmente a metformina é distribuída gratuitamente no Brasil pelo Governo Federal no sistema de Farmácias Populares, desde que o paciente apresente a receita médica.
Alguns pacientes apresentam efeitos adversos. Entre os mais comuns estão a diarreia e o inchaço e a dor abdominal. Contudo estes efeitos podem ser manejados através do ajuste da dose ou do uso da metformina de liberação prolongada.
Apesar, deste ótimo custo benefício, a metformina tem algumas contra-indicações. Por exemplo: pacientes com doença renal crônica têm risco de intoxicação.
Se você é diabético, procure seu endocrinologista e discuta com ele as diferentes opções de tratamento e procure conhecê-las. Ao contrário do que se pensa, nem sempre o novo e caro é melhor que o antigo e barato. O maior exemplo disso é a metformina!

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576