terça-feira, 29 de março de 2016

Dislipidemia em crianças e aumento do risco de doenças cardíacas e vasculares

O que é dislipidemia e quais seus riscos?

A dislipidemia, ou seja, o aumento de gorduras (colesterol e triglicerídeos) no sangue não é uma doença exclusiva de adultos. Em crianças, o aumento do colesterol já começa a trazer prejuízos como a aterosclerose (entupimento dos vasos sanguíneos), que em longo prazo acaba por causar doenças como o infarto do miocárdio e isquemias.



Quais crianças devem ser avaliadas para dislipidemia?

Principalmente as crianças que estão acima do peso, sedentárias, com pressão alta, com história familiar de doença cardiovascular precoce (familiares homens com menos de 55 anos e familiares mulheres com menos de 65 anos), com problemas cardíacos e diabéticas, devem ter seus níveis de colesterol e triglicerídeos medidos no sangue.

Como é feito o tratamento?

Na maioria das vezes, o tratamento é feito com modificações no estilo de vida da criança e dos familiares. Entre essa intervenções estão:
- dieta saudável para reduzir o peso e os níveis de colesterol e triglicerídeos;
- atividade física regular;
- não exposição à fumaça de cigarro (fumo passivo);
- em algumas crianças com níveis muito elevados de colesterol ou com níveis não tão altos, mas com doenças que aceleram o processo de aterosclerose, apesar das medidas acima, pode-se lançar mão de tratamento com medicamentos.

Caso o seu(sua) filho(a) se enquadre no grupo de crianças que merecem ser avaliadas para dislipidemia, consulte seu endocrinologista ou pediatra. As medidas preventivas funcionam melhor se iniciadas cedo.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

segunda-feira, 28 de março de 2016

Diabetes mellitus e saúde óssea

O tratamento do paciente que convive com diabetes mellitus é complexo. Os cuidados não se restringem ao controle da glicemia. Tanto os pacientes diabéticos do tipo 1 quanto do tipo 2, muitas vezes, apresentam comorbidades ou complicações associadas à doença. Pressão e colesterol altos, problemas cardíacos e vasculares, acometimento dos olhos, nervos e rins são de amplo conhecimento. Porém, não infrequentemente, a saúde óssea do paciente diabético fica negligenciada. Isso pode elevar o risco de fraturas. Vamos entender por que...
 

Nos pacientes com diabetes tipo 1 existe deficiência absoluta de insulina. Além de ser importante para a captação da glicose pelas células, a insulina também tem efeito anabólico, ou seja, estimula o crescimento de diferentes tecidos do nosso organismo. Diversos estudos mostram menor densidade mineral óssea em pacientes com diabetes tipo 1. Além disso, crianças diabéticas acabam tendo um pico de massa óssea menor. Isto é, por formarem menos osso, têm uma "poupança óssea menor", o que propicia o surgimento de osteopenia ou osteoporose em idade mais precoce.
No diabetes tipo 2, especialmente no início da doença, os níveis de insulina estão elevados. Isto acontece porque o pâncreas aumenta a secreção para tentar vencer a resistência à ação deste hormônio. Logo, pacientes com diabetes tipo 2 podem ter massa óssea aumentada. Mas não se engane! Este osso, apesar de parecer mais denso, na realidade é mais frágil. O diabetes, tipo 2 ou tipo 1, interfere nos mecanismos de remodelamento ósseo e na formação da matriz de colágeno. Isto quer dizer que a estrutura microscópica do osso fica comprometida. Imagine o pilar de uma ponte. A malha de aço é o colágeno e o concreto é o cálcio. Se a malha de aço não for boa, a ponte corre um risco maior de cair mesmo com concreto na quantidade certa. Nos nossos ossos acontece algo parecido. Por isso o diabetes aumenta o risco de fraturas independentemente da massa óssea (teor de cálcio).
Além disso, como dito no início do texto, muitos pacientes diabéticos, especialmente os de longa data, convivem com complicações. Diminuição da visão ou neuropatia podem aumentar o risco de quedas. E quem cai com ossos frágeis, pode quebrá-los. Sem falar que o simples uso de alguns medicamentos para o tratamento da doença (glitazonas) pode aumentar o risco de fraturas.
Apesar do aumento no risco de fraturas, a avaliação da doença óssea no paciente diabético segue as mesmas recomendações dos pacientes não diabéticos. Além da avaliação clínica e metabólica, a densitometria óssea traz informações úteis para decisão terapêutica, que deve ser individualizada. Além do manejo adequado do diabetes, entre as opções de tratamento estão suplementação de cálcio e de vitamina D e uso medicamentos que ajudam a preservar a densidade óssea, como os bisfosfonados. Exercícios físicos e prevenção/tratamento de complicações também são importantes para manter os ossos intactos.
Se você convive com diabetes, especialmente se há vários anos ou com complicações, procure seu médico e converse a respeito. Como tudo no diabetes, aqui a prevenção também é a melhor abordagem.

Fonte: Bone disease in diabetes mellitus - UpToDate OnLine
 
Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 27 de março de 2016

Tratamento do diabetes mellitus tipo 2: terapias baseadas no GLP-1

O que é GLP-1?

O GLP-1 é um hormônio produzido no intestino em resposta aos nutrientes da nossa alimentação.  O GLP-1 exerce uma série de funções no nosso organismo, entre elas: auxiliar o pâncreas a regular os níveis de glicose (açúcar no sangue), fazer com que o estômago se esvazie mais lentamente e diminuir o apetite. Os pacientes com diabetes mellitus tipo 2 têm níveis mais baixos de GLP-1, sendo este o motivo do desenvolvimento de remédios baseados nesta substância.



Quais são e como funcionam os remédios baseados no GLP-1?

São duas classes de remédios:
Agonistas do GLP-1: são medicamentos injetáveis que imitam a função do GLP-1 no nosso organismo. Estão disponíveis no mercado o exenatide (Byetta), o liraglutide (Victoza) e o lixisenatide (Lyxumia).
Inibidores da DPP-4 (gliptinas): são medicamentos usados por via oral (comprimidos) que fazem o GLP-1 produzido por nosso organismo durar mais tempo. No mercado brasileiro estão disponíveis a vildagliptina (Galvus), a sitagliptina (Januvia), a saxagliptina (Onglyza), a linagliptina (Trayenta) e a alogliptina (Nesina).

Quais as vantagens dos tratamentos baseados no GLP-1?

As principais vantagens desses medicamentos são que não aumentam (gliptinas) ou ajudam a perder peso (exenatide e liraglutide) e o baixo risco de hipoglicemias (queda da glicose). Além disso, as gliptinas são mais uma opção de tratamento via oral.

Quais as desvantagens dos tratamentos baseados no GLP-1?

Como são remédios relativamente novos, dados de eficácia (prevenção de complicações do diabete como cegueira, amputações, insuficiência renal crônica, infarto do miocárdio, acidente vascular encefálico...) e segurança (se o remédio causa potenciais efeitos adversos graves a médio e longo prazo) ainda não estão completamente disponíveis.
Apesar do curto período de tempo que estão disponíveis no mercado, já existem relatos de possíveis efeitos adversos graves com esses medicamentos, entre eles pancreatite (principalmente com análogos do GLP-1) e descompensação de insuficiência cardíaca congestiva (alguns inibidores da DPP-4).
Outra desvantagem é o custo elevado do tratamento quando comparado a outros tratamentos para o diabetes.

Você que é diabético, antes de começar algum tratamento baseado no GLP-1, discuta com seu endocrinologista os benefícios, possíveis riscos e custos. O diabetes é uma doença crônica, ou seja, não tem cura, e irá te acompanhar para o resto da vida. Logo, o tratamento mais próximo ao ideal deve ter benefício comprovado (não só reduzir a glicose, mas também reduzir complicações), ser seguro (não causar efeitos adversos graves) e de custo acessível (remédios caros dificultam a adesão ao tratamento e não são necessariamente melhores).

Fonte: UpToDate Online

 Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

sábado, 26 de março de 2016

Óleo de coco baseado em evidências

A internet é uma grande fonte de informação, e isso é inegável. No entanto, nem tudo que lemos em sites, blogs ou redes sociais passa por crivo científico criterioso. A literatura médica é vasta. E os diferentes estudos são hierarquizados de acordo com sua qualidade metodológica e com a força das evidências. Por exemplo, um estudo pequeno que disse que determinado tratamento em ratinhos pode baixar o colesterol não deve ser interpretado da mesma maneira que outro estudo que avaliou a mesma intervenção em um grande número de seres humanos e observou que este tratamento não serviu para reduzir infartos ou mortes. Em outras palavras, estudos que replicam as situações da vida real de maneira mais apropriada “pesam mais” na balança da ciência. Dito isto, vamos ao óleo de coco...



Basta digitarmos “óleo de coco” no Google para nos maravilharmos com efeitos positivos no colesterol e no risco cardiovascular, além de potencial antioxidante e até mesmo emagrecedor. Contudo, ao fazermos a mesma pesquisa na base de dados médicos Pubmed, podemos perceber que o óleo de coco ainda precisa provar muita coisa...
O óleo de coco virgem, que é obtido através da prensagem a frio do coco, retém grande quantidade de fitoesteróis, tocotrienóis, tocoferóis, além de outros compostos bioativos, substâncias que realmente têm potencial de redução do colesterol e efeito antioxidante. Contudo, aqui cabem duas ressalvas. O processo de fabricação do óleo de coco é bastante variável na indústria. Quando o processo de extração do óleo não controla a temperatura de forma apropriada, perde-se grande parte dos antioxidantes. Além disso, o potencial efeito benéfico dos fitoesteróis é contrabalanceado pelo alto teor de gordura saturada (92%).
Os defensores do óleo de coco argumentam que a gordura saturada nele presente é diferenciada. Os ácidos láurico e mirístico, por serem de ácidos graxos de cadeia média, seriam rapidamente metabolizados favorecendo a elevação do colesterol HDL (bom), menor oxidação do colesterol LDL (ruim) e queima de gordura, com potencial redução do risco cardiovascular e do peso. No entanto, os estudos que evidenciaram estes possíveis benefícios foram feitos em ratos (1) ou apresentaram limitações metodológicas (2). Como vimos no início deste texto, a Medicina hierarquiza a pequisa e, até agora, o óleo de coco permanece no nível mais baixo de evidência, isto é, precisa, no mínimo, ser melhor estudado.
Em março de 2016, um grupo de pesquisadores da Nova Zelândia compilou toda a literatura disponível sobre os potenciais benefícios do óleo de coco e publicou na revista Nutrition Reviews o artigo intitulado “Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans” (3). Os autores localizaram 21 estudos (8 controlados e 13 observacionais). Segundo os autores, o óleo de coco aumentou os níveis de colesterol total e colesterol LDL (ruim). Apesar de aumentar os níveis de colesterol, o óleo de coco aparentemente não aumentou o risco de doenças cardiovasculares, pelo menos em populações que culturalmente o consomem. Ou seja, o óleo de coco parece não aumentar o risco de problemas cardíacos dentro da dieta dos povos polinésios, mas não podemos dizer o mesmo dentro da dieta Ocidental.
Em resumo, não existem provas definitivas que o óleo de coco ajude a melhorar a imunidade e o metabolismo ou a reduzir o risco de doenças cardíacas. Não é um suplemento, muito menos um remédio. A preferência pelo seu uso restringe-se mais a uma opção culinária e deve ser feita com moderação. 
Para quem ficou interessado nos antioxidantes e nos fitoesteróis, a sugestão é consumir a polpa do coco, que também é rica em fibras. Mas dentro de uma alimentação equilibrada, com atividades físicas regulares e... sem esperar milagres!

Fontes:
1 - Nevin KG, Rajamohan T. Beneficial effects of virgin coconut oil on lipid parameters and in vitro LDL oxidation. Clin Biochem. 2004 Sep;37(9):830-5.
2 - Cardoso DA, Moreira AS, de Oliveira GM, Raggio Luiz R, Rosa GA. COCONUT EXTRA VIRGIN OIL-RICH DIET INCREASES HDL CHOLESTEROL AND DECREASES WAIST CIRCUMFERENCE AND BODY MASS IN CORONARY ARTERY DISEASE PATIENTS. Nutr Hosp. 2015;32(5):2144.
3 - Eyres L, Eyres MF, Chisholm A, Brown RC. Coconut oil consumption and cardiovascular risk factors in humans. Nutr Rev. 2016 Apr;74(4):267-80.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

sábado, 19 de março de 2016

Hipotireoidismo subclínico - uma disfunção leve da tireoide

Com a disponibilidade maior de exames laboratoriais, cada vez mais se faz diagnóstico de disfunções discretas no funcionamento de diferentes órgãos. No caso da tireoide não é diferente.
O hipotireoidismo subclínico é uma disfunção mínima da tireoide caracterizada por níveis elevados de TSH com T4 livre normal. É uma condição de diagnóstico laboratorial já que a maioria dos pacientes ou são assintomáticos ou apresentam sintomas vagos e inespecíficos, principalmente se o TSH é menor que 10 mU/L.


Estima-se que entre 4 e 15 de cada 100 pessoas possua diagnóstico de hipotireoidismo subclínico, ou seja, é uma condição muito comum, principalmente em mulheres, idosos e pessoas com cor de pele branca.
Entre as causas do hipotireoidismo subclínico destacam-se a tireoidite crônica ou tireoidite de Hashimoto (principal causa), uso prévio de iodo radioativo, cirurgia prévia da tireoide, radioterapia na região do pescoço e uso de medicamentos que interferem no funcionamento da tireoide.
Em diferentes estudos, o hipotireoidismo subclínico parece estar associado a um risco maior de progressão para hipotireoidismo. Um em cada 3 pacientes acaba por desenvolver hipotireoidismo dentro de 10 anos, principalmente se o TSH é alto e o anticorpos contra a tireoide (anti-TPO) são positivos. Contudo, mais de 6 em cada 10 pacientes com hipotireoidismo subclínico acaba normalizando a função da tireoide dentro de 5 anos mesmo sem tratamento.
Existe muito debate se o hipotireoidismo subclínico está associado a aumento no risco de doenças cardíacas e vasculares ou a aumento no risco de morte. Os dados sugerem que pessoas com TSH em faixas mais altas possam realmente ter um pequeno aumento de risco (1% ao ano).
Apesar da suspeita, ainda não se sabe se o tratamento do hipotireoidismo subclínico diminui ou aumenta o risco de doenças cardíacas. Logo, o uso do hormônio tireoidiano deve ser individualizado, já que pouco ajuda na melhora da qualidade de vida dos pacientes nos estudos controlados.
Caso você tenha exames de tireoide alterados, procure um endocrinologista para discutir os prós e os contras do tratamento e decidir qual é a melhor opção.

Fonte: http://drmateusendocrino.com/tireoide/41-disfuncao-minima-da-tireoide-hipotireoidismo-subclinico.html

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 13 de março de 2016

Alimentos com potencial de prevenir o diabetes mellitus - baseado em evidências

Vivemos uma verdadeira epidemia de diabetes! Hoje no Brasil são mais de 12 milhões de pessoas convivendo com a doença. Segundo o Centers for Disease Control and Prevention dos Estados Unidos, 2 em cada 5 americanos vai desenvolver diabetes no decorrer de suas vidas. Como compartilhamos cada vez mais diversos aspectos culturais com aquela população, é esperado que tenhamos cada vez mais pessoas diabéticas aqui no Brasil também.
Entre as recomendações formais para a prevenção do diabetes estão redução do peso e atividades físicas regulares. Contudo, acumulam-se evidências de que o consumo regular de certos alimentos também possam ajudar a prevenir a doença. Vamos conhecê-los?

1- Mirtilos e uvas
Um estudo publicado na revista BMJ em 2013 compilou dados de 3 coortes totalizando mais de 187 mil pessoas que foram seguidas por até 24 anos. Neste estudo o consumo de 3 porções de mirtilo por semana reduziu o risco de diabetes em 26 por cento. Já o consumo de uvas reduziu o risco em 12 por cento. Outras frutas que também se mostraram protetoras foram maçãs e bananas. Detalhe: o efeito protetor vale apenas para o consumo das frutas inteiras. O consumo de suco teve efeito contrário! Isto é, aumentou o risco de diabetes.

Mirtilo ou blueberry

2- Oleaginosas
Castanhas, nozes, amêndoas, macadâmias, avelãs e pistaches são ricos em gorduras insaturadas, proteínas de alto valor biológico, fibras, vitaminas e minerais (potássio, cálcio, magnésio e selênio), além de fitoquímicos (flavonoides, carotenoides e fitosteróis). Estes nutrientes têm efeitos protetores do coração, antioxidantes, anticancerígenos e anti-inflamatórios, explicando por que são capazes de reduzir mortalidade. O consumo regular de oleaginosas também tem efeitos metabólicos importantes como melhora do controle da glicemia (açúcar no sangue), redução do LDL (colesterol ruim) e triglicerídeos, aumento do HDL (colesterol bom), redução da pressão arterial e auxílio em manter o peso ideal, reduzindo o risco de obesidade. Além disso, quem consome oleaginosas acaba deixando de consumir carboidratos, o que é benéfico até mesmo para quem já convive com o diabetes.

Oleaginosas

3- Café
Apesar dos dados ainda não serem definitivos, diversos estudos associam o consumo do café preto a menor risco de diabetes. Um desses estudos calculou que aumentar o consumo em 1 xícara e meia por dia já é capaz de oferecer redução no risco de diabetes de 11 por cento em 4 anos.

Café

4- Chocolate amargo
Chocolates com altas concentrações de cacau são ricos em polifenóis. Estas substâncias antioxidantes são responsáveis por benefícios como redução no risco de doenças cardiovasculares, além de ter efeitos metabólicos semelhantes aos das oleaginosas. No entanto, as versões ao leite e branco, por terem alto teor de açúcar e gordura adicionada, não são recomendadas e podem ser até deletérias.

Chocolate amargo

5- Iogurte desnatado
Ao contrário do que alguns blogueiros propagam, derivados lácteos magros, especialmente o iogurte desnatado se associam a menor risco de diabetes. No estudo EPIC-Norfolk, o consumo de iogurte desnatado nos lanches reduziu o risco de diabetes em 47 por cento. Outros estudos mostram que derivados lácteos desnatados fermentados, como o iogurte desnatado, melhoram a função da insulina, explicando o mecanismo de prevenção do diabetes.

Iogurte desnatado

6- Azeite de oliva
Um dos poucos alimentos rigorosamente avaliados dentro de pesquisa de alta qualidade metodológica, no estudo PREDIMED, o consumo regular de 50 mL por dia de azeite de oliva se mostrou efetivo não só na redução no risco de diabetes como na redução de doenças cardiovasculares (risco cerca de 30 por cento menor para ambos os desfechos).

Azeite de oliva

Dicas interessantes, não? Contudo, vale lembrar que mudanças nos hábitos alimentares devem ser preferencialmente realizadas sob supervisão de profissional qualificado, seja médico ou nutricionista, após apropriada avaliação clínica.

Referências:
1-Muraki I, Imamura F, Manson JE, et al. Fruit consumption and risk of type 2 diabetes: results from three prospective longitudinal cohort studies. BMJ.2013;347:f5001.
2-Jaceldo-Siegl K, Haddad E, Oda K, Fraser GE, Sabaté J. Tree nuts are inversely associated with metabolic syndrome and obesity: the Adventist Health Study-2. PLoS One. 2014;9:e85133.
3-Bhupathiraju SN, Pan A, Manson JE, Willett WC, van Dam RM, Hu FB. Change in coffee intake and subsequent risk of type 2 diabetes: three large cohorts of US men and women. Diabetologia.2014;57:1346-1354.
4- Stetka BS. 7 health benefits of chocolate. Medscape. February 6, 2013.
5- O'Connor LM, Lentjes M, Luben R, Khaw KT, Wareham NJ, Forouhi NG. Dietary dairy product intake and incident type 2 diabetes: a prospective study using dietary data from a 7-day food diary. Diabetologia.2014;57:909-917. 
6- Estruch R, Ros E, Salas-Salvadó J, Covas MI, Corella D, Arós F, Gómez-Gracia E, Ruiz-Gutiérrez V, Fiol M, Lapetra J, Lamuela-Raventos RM, Serra-Majem L, Pintó X, Basora J, Muñoz MA, Sorlí JV, Martínez JA, Martínez-González MA; PREDIMED Study Investigators. Primary prevention of cardiovascular disease with a Mediterranean diet. N Engl J Med. 2013 Apr 4;368(14):1279-90.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

Figo-da-índia: valor nutricional

Da série frutas exóticas, apresento o figo-da-índia. Pelo menos em Santa Maria, onde moro, não é uma fruta muito fácil de se encontrar no comércio. Assim como a pitaia, o figo-da-índia vem de uma espécie de cactus 🌵. A fruta é pouco atraente por fora e vermelha e suculenta por dentro. O sabor lembra a melancia 🍉, mas menos doce. Entre as características nutricionais, destacam-se o baixo valor calórico e o alto teor de fibras, vitamina C, vitamina A, ferro e potássio. Além disso, o figo-da-índia tem propriedades diuréticas e anti-inflamatórias, sendo componente de alguns fitoterápicos. Sendo honesto, o sabor da fruta in natura não me agradou muito. Mas dentro de uma dieta equilibrada e uma rotina de atividades físicas, principalmente por ter poucas calorias e ser rico em fibras, o "figo" pode dar uma forcinha para manter o peso ideal.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

quinta-feira, 10 de março de 2016

Puberdade precoce: quando o desenvolvimento sexual começa antes da hora

O que é puberdade precoce?

Chama-se de puberdade o conjunto de modificações que o corpo da criança passa para tornar-se adulto. Já na puberdade precoce, estas mudanças começam antes do tempo.
A puberdade normal usualmente começa entre os 9 e 12 anos nas meninas e entre os 10 e 13 anos nos meninos. A puberdade é considerada precoce se começar antes dos 8 anos nas meninas ou antes dos 9 anos nos meninos.



O que causa a puberdade precoce?

A puberdade normal começa quando ovários ou testículos iniciam a produção dos hormônios estradiol e testosterona, respectivamente. Na puberdade precoce a produção hormonal começa antes do tempo devido a problemas nos testículos, nos ovários, na glândula hipófise ou na área do cérebro conhecida como hipotálamo. Contudo, pode ocorrer puberdade precoce mesmo na ausência de alterações identificáveis. Isso é comum principalmente nas meninas.

Quais são as mudanças que ocorrem no corpo da criança durante a puberdade precoce?

As mudanças são as mesmas que acontecem na puberdade normal, mas surgem antes do tempo.
Nos meninos:
- aumento dos testículos (primeiro sinal);
- aumento do tamanho do pênis;
- crescimento de pelos pubianos, axilares e de barba;
- mudança na voz;
- ejaculação;
- crescimento transitório das mamas em alguns;
- crescimento acelerado.
Nas meninas:
- crescimento das mamas (primeiro sinal);
- crescimento de pelos pubianos e axilares;
- menstruação;
- crescimento acelerado.

Como é feita a avaliação da puberdade precoce?

A avaliação começa com uma história detalhada, incluindo informações sobre a puberdade dos pais. A criança é medida e pesada e o desenvolvimento sexual é avaliado. Havendo necessidade, são pedidos exames de sangue e raio-x da mão para avaliação da cartilagem de crescimento. Conforme o resultado destes primeiros exames, podem ser pedidos testes hormonais confirmatórios e exames de imagem como ecografias dos órgãos genitais ou ressonância magnética da hipófise/hipotálamo.

Como é feito o tratamento da puberdade precoce?

O tratamento apropriado da puberdade precoce é importante, pois evita que a cartilagem de crescimento se feche antes do tempo. Isso preserva a estatura da criança, fazendo com que ela consiga crescer por mais tempo, evitando a baixa estatura.
Algumas crianças com progressão lenta da puberdade podem ser apenas monitoradas de perto. Outras com causas específicas identificadas, como tumores de testículo ou de ovário, podem necessitar de tratamento cirúrgico. Por fim, outras crianças precisam bloquear a puberdade com tratamento injetável.

Caso você desconfie que seu filho(a) está desenvolvendo entrando em puberdade antes do tempo, procure o pediatra e o endocrinologista e faça uma avaliação.


Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

segunda-feira, 7 de março de 2016

Medicamentos que elevam os níveis de prolactina

Sempre que um paciente traz exames de sangue mostrando níveis discretamente elevados de prolactina (até 200 ng/mL), um dos primeiros passos da avaliação é coletar detalhadamente o histórico de todas as substâncias, especialmente medicações psiquiátricas, que vinham sendo usadas. A prolactina é produzida pela glândula hipófise. Outra substância, a dopamina produzida pelo hipotálamo, desce pela pequena haste hipofisária e é capaz de inibir a produção de prolactina na hipófise (figura abaixo). Ou seja, medicamentos que interfiram na ação da dopamina são capazes de elevar os níveis de prolactina.
Abaixo, uma lista de medicamentos comumente associados ao aumento nos níveis de prolactina e seus mecanismos de ação.



Antipsicóticos de primeira geração: bloqueiam o receptor D2 da dopamina.

Clorpromazina
Flufenazina
Haloperidol
Loxapina
Perfenazina
Pimozida
Tiotixeno
Trifluoperazina

Antipsicóticos de segunda geração: bloqueiam o receptor D2 da dopamina.

Aripiprazol
Asenapina   
Clozapina
Iloperidona
Lurasidona
Olanzapina
Paliperidona
Quetiapina
Risperidona (medicamento que mais eleva a prolactina!)
Ziprasidona

Antidepressivos tricíclicos: possivelmente agem através de estimulação GABA e modulação indireta da liberação de prolactina pela serotonina.

Amitriptilina
Desipramina
Clomipramina
OBS: a nortriptilina não causa elevação da prolactina

Antidepressivos inibidores seletivos da recaptação de serotonina: mesmo mecanismo dos triciclicos. O aumento da prolactina é menos comum.

Citalopram
Fluoxetina
Fluvoxamina
Paroxetina
Sertralina

Medicações para vômito: bloqueiam o receptor D2 da dopamina.

Metoclopramida
Domperidona
Proclorperazina

Medicamentos para pressão alta:
Verapamil - mecanismo pouco conhecido.
Metildopa - inibe a síntese de dopamina.

Analgésicos opioides (tratamento de dor grave): efeito indireto da ativação do receptor mu opioide. A elevação da prolactina é transitória nesses casos.
Metadona, morfina e outros.

Nos casos de elevação dos níveis de prolactina concomitantes ao uso destes medicamentos, a avaliação conjunta do médico endocrinologista com o médico prescritor (clínico, psiquiatra, gastroenterologista ou cardiologista) é fundamental para decisão da melhor forma de abordagem diagnóstica e terapêutica, já que alguns pacientes poderão seguir fazendo uso da medicação e outros deverão ter a medicação suspensa ou substituída.

Fonte: UpToDate

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 6 de março de 2016

Consumo de chocolate pelo paciente diabético

Estamos quase na Páscoa e os supermercados já estão com seus “túneis” de ovos de chocolate montados, o que chama a atenção e aumenta a vontade de degustar essa guloseima. Mas e o paciente que convive com diabetes mellitus? Também pode se deliciar com chocolate? Não só pode, como deve! Mas alguns cuidados devem ser tomados. Vejamos...
No ano de 2012, a revista médica mais importante do mundo, New England Journal of Medicine, publicou um estudo muito interessante. Pesquisadores demonstraram que os países onde mais pessoas consumiam chocolate, ganhavam mais prêmios Nobel (!!!). Seria uma evidência epidemiológica de que o consumo regular de chocolate melhorava as capacidades cognitivas de quem o saboreava? Possivelmente. O chocolate é feito de cacau, planta que como o chá-verde é rica em flavonoides. Estes compostos fenólicos são potentes antioxidantes e anti-inflamatórios naturais. Estas substâncias quando consumidas regularmente têm o potencial de trazer uma série de benefícios ao cérebro, coração, vasos e metabolismo.



Além da melhora da função cognitiva, alguns estudos sugerem que o consumo de chocolate possa ajudar a combater sintomas depressivos através da modulação da dopamina e dos opioides no cérebro. Além disso, dois estudos suecos mostraram que aumentar o consumo de chocolate amargo em pelo menos 50 gramas por semana foi capaz de reduzir o risco de isquemias e hemorragias cerebrais em até 27 por cento! Vale lembrar que pacientes diabéticos apresentam risco maior para estas doenças.
Os suecos realmente gostam de estudar os benefícios do chocolate! Outra análise mostrou que o consumo de apenas 28 gramas de chocolate amargo uma ou 2 vezes por semana se associou a um risco 32 por cento menor de insuficiência cardíaca. Estudos posteriores evidenciaram melhora na função do endotélio (camada interna dos vasos) e da função das plaquetas (responsáveis pela coagulação do sangue). Ou seja, o chocolate também tem potencial de reduzir infartos e mortalidade por doença coronariana. E as doenças cardiovasculares são as principais causas de morte em pacientes com diabetes mellitus...
Uma extensa revisão da literatura publicada na prestigiada Cochrane Database of Systemic Reviews mostrou que o consumo de chocolate ajuda a reduzir a pressão arterial. O efeito é devido a liberação de óxido nítrico, um potente vasodilatador, pelo endotélio. Além disso, os chocolates com mais de 60% de cacau, apesar de possuírem gorduras saturadas, são capazes de reduzir os níveis de colesterol LDL (ruim) e aumentar os níveis de HDL (colesterol bom). Algo impressionante: um estudo publicado em 2012 na revista médica Archives of Internal Medicine associou um maior consumo de chocolate a um menor índice de massa corporal (IMC)! Isto é, dentro de uma alimentação equilibrada, os antioxidantes do chocolate poderiam ajudar a manter o peso mais próximo do ideal. Por fim, existem evidências de que os polifenóis melhoram a função das células beta do pâncreas, melhorando o metabolismo glicêmico. Ótimas notícias para quem convive com o diabetes, não?
Contudo, todos os estudos que mostraram benefícios, sempre usaram as versões “amargas” do chocolate, ou seja, com alto teor de cacau (60% ou mais). As versões ao leite e branco são ricas em açúcar e gorduras adicionadas (diferentes do ácido esteárico do cacau), além de serem pobres nos benéficos polifenóis, ou seja, podem ser prejudiciais à saúde e devem ser evitadas principalmente por pacientes diabéticos.
Nesta Páscoa peça ao Coelho chocolates com alto teor de cacau e não abuse! Apesar de bom para saúde, o chocolate amargo ainda é um alimento calórico, ou seja, em excesso pode aumentar o peso.

Fonte: Medscape

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576