domingo, 15 de novembro de 2015

Cirurgia da obesidade: o papel do endocrinologista na equipe multidisciplinar

O estilo de vida atual caracterizado por alimentação inadequada, rica em produtos prontos de alto valor calórico, associada ao sedentarismo fez crescer o número de pessoas com excesso de peso. No Brasil, cerca de 10% da população possui índice de massa corpórea (IMC) maior ou igual a 30 kg/m2, ou seja, está obesa.
Entre as alternativas para o tratamento da obesidade, tem-se usado cada vez mais a cirurgia da obesidade ou cirurgia bariátrica. A cirurgia bariátrica consiste em um conjunto de técnicas onde o trato gastrointestinal (estômago e intestino) é manipulado para restringir a quantidade de comida e/ou diminuir a absorção dos alimentos tendo como objetivo a redução do peso.



De uma maneira geral, a cirurgia bariátrica pode ser indicada para pacientes com IMC maior ou igual a 40 kg/m2 ou IMC maior ou igual a 35 kg/m2 quando associado a outras doenças (diabetes mellitus tipo 2, apneia obstrutiva do sono, doenças articulares, entre outras).
Devido à complexidade da obesidade como doença, o sucesso do procedimento cirúrgico somente é garantido se o paciente for devidamente avaliado e acompanhado por equipe multidisciplinar. Fazem parte desta equipe: o cirurgião geral, o anestesista, o nutricionista, o psicólogo, o fisioterapeuta, o psiquiatra e o endocrinologista. Podem fazer parte também: o clínico geral, o educador físico, o gastroenterologista e o cardiologista.
O papel do endocrinologista consiste em verificar a indicação, afastar causas secundárias de obesidade, avaliar o paciente quanto à presença de complicações associadas à obesidade e acompanhar o paciente no pós-operatório para prevenir e tratar as possíveis complicações clínicas e nutricionais associadas tanto à cirurgia quanto à obesidade.
Entre as causas secundárias de excesso de peso estão doenças da tireoide e da glândula adrenal além de distúrbios hipotalâmicos. Estas doenças são investigadas pelo endocrinologista quando existe suspeita clínica.
Com relação às complicações associadas à obesidade, destacam-se: pressão alta, elevação do colesterol e triglicerídeos, diabetes mellitus, apneia do sono, artrose, gota e depósito de gordura no fígado (esteatose). Antes da cirurgia, todos estes problemas devem ser devidamente avaliados e tratados, já que aumentam o risco cirúrgico. Uma vez que o emagrecimento comece a acontecer, várias destes problemas podem melhorar, exigindo assim ajustes nas doses das medicações em uso.
Além disso, o endocrinologista solicita exames para avaliar a condição nutricional do paciente no pré-operatório e regularmente no pós-operatório. Estes exames são importantes, pois após a cirurgia podem acontecer deficiências de nutrientes, mesmo com a suplementação feita de rotina. Por exemplo: devem-se dosar no sangue os níveis de vitamina B12 e de vitamina D. A deficiência destas vitaminas pode acontecer após a cirurgia e levar o paciente a anemia, doenças nos nervos, osteoporose e fraturas.
O acompanhamento médico com o endocrinologista também garante que o paciente não vá recuperar o peso após a cirurgia. Estudos recentes mostram que até metade dos pacientes que fazem cirurgia bariátrica recupera pelo menos 25% do peso perdido dentro de 10 anos. A educação continuada do paciente, a monitorização do peso e o tratamento medicamentoso, quando necessário, ajudam a evitar que a obesidade volte.
Se você pretende fazer cirurgia bariátrica, agende uma consulta com o endocrinologista para iniciar seu acompanhamento, que deverá ser mantido por tempo indeterminado. A ansiedade pela cirurgia e pelos seus resultados é compreensível, mas não deve atrapalhar a avaliação que é muito importante e não deve ser feita de maneira apressada. A cirurgia bariátrica não é milagrosa, mas funciona muito bem desde que a indicação, avaliação e seguimento sejam feitos corretamente.

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576

domingo, 1 de novembro de 2015

A verdade sobre os óleos: comentário da matéria da revista Saúde É Vital (10/2015)

Em meio a tanta desinformação, eis que surge na grande imprensa uma ótima reportagem mostrando os prós e contras das principais opções de óleos vegetais disponíveis no mercado brasileiro. Sugiro fortemente a leitura da matéria na íntegra. A seguir, alguns “pontos altos” da reportagem...




1- Existe sim uma planta chamada canola e seu óleo não é tóxico. A canola é derivada do melhoramento genético de uma outra planta, a colza. Esta modificação foi feita para que o ácido erúcico da colza fosse eliminado, pois é tóxico. O óleo de canola é aprovado por diversos órgãos internacionais e não há evidência de que seu consumo, quando feito de maneira apropriada, faça mal a saúde humana.

2- A revista Saúde É Vital entrevistou uma das orientadoras do tão citado trabalho em que o consumo diário de óleo de coco reduziu a circunferência abdominal de participantes com doença cardíaca. A nutricionista Annie Bello disse a revista: “O problema (do estudo) é que o colesterol ruim, o LDL, também aumentou. Não é que esse óleo seja ruim, mas também não faz milagres. Pode inclusive acarretar prejuízos.” Sensatez de uma pesquisadora séria!

3- Os óleos de milho e girassol possuem um teor mais elevado de ômega 6 que de ômega 3. Alguns estudos sugerem que este desequilíbrio dos ômegas possa predispor a inflamação dos vasos sanguíneos. Até que mais dados estejam disponíveis, vale a moderação.

4- O óleo de soja apresenta um ótimo custo-benefício, pois é barato e tem teores equilibrados dos ômegas.

5- O fato da gordura saturada ser menos vulnerável à oxidação não é sinal de que seja melhor para a saúde. Isso só quer dizer que o óleo aguenta temperaturas altíssimas e pode ser usado repetidas vezes sem alterar seu sabor ou cheiro.

6- O azeite de oliva pode sim ser aquecido. Este óleo além de ser rico em gordura monoinsaturada, apresenta polifenóis, que são substâncias antioxidantes. A temperatura alta degrada os polifenóis, mas não torna o azeite de oliva impróprio para o consumo. Apenas perde parte do seu benefício.

Vale a leitura!

Dr. Mateus Dornelles Severo
 Médico Endocrinologista
Mestre em Endocrinologia
CREMERS 30.576